25/09/09

Eu conto, tu contas, ele conta.

Bianca chegou até mim de forma estranha, dessas maneiras que as pessoas normais não costumam abordar as outras, até porque não se aborda ninguém em busca de amizade, não no meu mundo. Afetos simplesmente acontecem. Resisti até onde pude àquela pessoa totalmente às avessas do que eu chamaria de normalidade. Eu era muito nova, lá com meus dezessete anos, e ela persistente demais, possuía uma cegueira que a impedia de enxergar a minha indiferença, como se eu realmente a amasse. Aos poucos foi me dando uma pena daquele carinho tão grande e tão platônico. Resolvi dar uma chance àquela relação, já que ela parecia gostar tanto de mim. Pensei em quantas vezes desperdiçamos nossos sentimentos com pessoas que não valorizam, e fui. Pois quando eu decido ir, eu vou sem pretensão alguma de voltar.
Deixei que ela conhecesse o meu mundo, meus amigos, minha família, meus amores, meus lares, os mais íntimos possíveis. E devagarzinho ela foi se transformando nisso tudo, era a minha irmã. Eu unha, ela carne. A pessoa em que eu podia confiar, contar sobre os meus medos, deitar no colo e chorar, sair pra tomar um sorvete e morrer de rir de qualquer besteira.
Mas eu sabia que nem todo mundo gostava dela, exatamente por ela ser de outro mundo, a suportavam por minha causa, eu sei. No fundo eu sentia certa raiva das pessoas, por serem preconceituosas e insensíveis, só queriam a companhia daqueles que a sociedade dita como legal. E uma coisa que me fazia gostar muito de alguém, era quando essa pessoa gostava da Bianca, não era cruel como a maioria das outras, que só ligavam pro trivial. Na minha concepção, quem gostava da Bianca era uma pessoa de alma boa. Pois apesar de Bianca ser do jeito que era, eu nunca havia encontrado amiga que fizesse realmente juz à palavra. E assim foi durante anos.
Bianca tinha lá suas coisas, como todo mundo tem seus defeitos, mas amigo é pra amar a gente mesmo assim, com tudo de bom e de ruim. Ela era sensível demais, eu sempre tinha que pensar como eu ia falar de tal assunto, medir bem as palavras, procurar colocar o real sentido do que eu queria dizer nas entrelinhas, para que ela entendesse por si própria e não desconfiasse o que eu realmente achava dela. Mas ela nunca entendia. Tinha muito medo de perder as pessoas, eu não entendia isso, brigava com ela. Tinha tanto medo de me perder que acabava por me sufocar, como se de repente eu pudesse deixar de amá-la, então ela aproveitava todos os momentos que estávamos juntas.
Mas eu sempre fui meio bicho solto, meio passarinho. Gosto de estar sozinha e acho que tenho o direito de às vezes não gostar de todo mundo, de não querer determinada companhia. Gosto de não dar satisfação, de não saberem onde estou. Gosto às vezes de ter um problema, de ter uma dor, e não dividir com ninguém, guardar tudo só pra mim. E acima de tudo gosto que respeitem isso. Não que eu seja uma completa desapegada, mas é que tudo tem seus limites. Nem muito, nem pouco. Sob medida.
Mas Bianca não era assim. Fui me cansando de tanto amor, de tanta preocupação. Reações que nem minha própria mãe seria capaz de ter, e dizem que mãe é o bicho que mais ama a gente nesse mundo. Eu chegava a me criticar, pensando se eu não estava me tornado cruel como os outros. Mas eu realmente estava farta, porque Bianca nunca conseguiu ter um olhar leve sobre as coisas, ao contrário de mim, que pode o Jornal Nacional anunciar que amanhã será o fim do mundo e ta tudo bem, vamos aproveitar o que nos resta. Bianca era pesada demais, e gostava de por seu peso nas nossas cabeças, de derramar suas lágrimas pra dentro da gente.
Não sei bem como contar o que aconteceu, vai parecer que foi de repente, mas nem eu mesma sei como foi. Apenas compreendi o medo que Bianca tinha de perder as pessoas, ela tinha motivos pra isso. E esses motivos apareceram, porque tudo na vida tem seu momento certo. Bianca perdeu seus poucos amores.
Hoje Bianca é pó e mentira, é a loucura mais absurda. É estupro, aborto, é a relação mais desmedida, é o amor desenfreado, é a violência. Bianca é todas essas coisas que não existem no meu mundo, somente no mundo irreal dela, mas que ela insistiu em trazer pra mim. Bianca é pó e mentira, a loucura mais absurda.
Mas ela continua viva, no coração de algum novo amor, pra quem ela conta suas histórias de outro mundo.

2 comentários:

Afonso C. disse...

Meu passarinhozinho lindo:
Nunca se deixe teus olhos chorarem para dentro.
Isso afoga a gente.
Bianca é isso.

Carol disse...

que lindo. fazia tempo que eu não vinha aqui. agora que voltei, quero ficar. favoritei. saudades. não só do blog.